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Milica Ilic: moldar novas formas de trabalhar para o setor artístico

Milica Ilic é consultora internacional do Office National de Diffusion Artistique (O.N.D.A.) e coordenadora do projeto RESHAPE, do qual a Artemrede é parceira. Entrevistámo-la para o Jornal da Artemrede no rescaldo do RESHAPE Forum, em Lublin, onde se reuniram cerca de 80 profissionais para o lançamento do projeto que pretende moldar novas formas de trabalhar para o setor artístico.

O elevado número de candidaturas recebidas aquando da convocatória parece indicar um grande interesse do setor pela criação de novos modelos de trabalho. Por que motivo é urgente delinear os futuros contornos do setor? 

O projeto RESHAPE nasceu da necessidade de repensar as práticas do setor artístico à luz das mudanças radicais que as nossas sociedades vivem. Antes de lançar o projeto, os vários parceiros já tinham reuniões em que discutiam desafios e interesses comuns. Enquanto organizações de apoio às artes tínhamos uma visão geral das evoluções que ocorriam nos nossos contextos, mas sentíamos que precisávamos de espaço para discutir essas mudanças numa escala maior. Percebemos muito rapidamente que, embora oriundos de contextos muito diferentes, partilhávamos a sensação de viver e de trabalhar num sistema cada vez mais disfuncional.

Deparamo-nos então com uma escolha radical: ou continuamos na mesma – e arriscamos a desintegração – ou tomamos as rédeas da mudança, garantindo que as transformações estão em linha com os nossos termos e valores. O número de candidaturas que recebemos na convocatória não é apenas um sinal de que esta visão é partilhada por muitos outros profissionais. Acreditávamos, e isso veio a comprovar-se, que já existiam muitas práticas experimentais a decorrer, mas numa escala local, com poucos recursos e fora do radar. Queríamos conectar e apoiar essas iniciativas, que são tão pouco visíveis. Elas são sementes de possíveis evoluções.

Como evoluiu a sua perceção sobre o projeto desde a fase de candidatura ao programa Europa Criativa até agora?

RESHAPE é o resultado de anos de discussões com colegas de organizações de apoio às artes. Inicialmente, o objetivo não era criar um projeto, mas ele acabou por surgir de forma orgânica. O cofinanciamento do programa Europa Criativa foi um impulso tremendo. Deu-nos espaço para pesquisar e experimentar, o que não teria sido possível no nosso trabalho quotidiano, que se orienta sobretudo pela lógica das políticas culturais dos Estados—Nação, obrigando-nos a um foco nos nossos próprios territórios. É agora claro que temos entre mãos algo ainda mais rico e dinâmico do que pensávamos. Mas também há muito a fazer. Temos de estar conscientes dos desequilíbrios radicais que existem no nosso espaço cultural comum. Na Europa e no sul do Mediterrâneo esses desequilíbrios estão tão enraizados que, às vezes, parecem intransponíveis. Há muito a fazer para que possamos compreender verdadeiramente o quão diferentes podem ser os nossos contextos. Há também uma confiança a ser construída, alianças a serem feitas em todo o setor artístico (entre instituições, públicos e artistas) e com outros setores cujo trabalho assenta em valores humanistas.

Para além de ser um projeto amplamente assente num processo aberto, quais são os maiores desafios do RESHAPE?

Há muitos desafios. Nós, parceiros, estamos convencidos de que a Europa e o Sul do Mediterrâneo constituem o nosso espaço cultural, político e social comum. Mas esse espaço não é neutro e as relações complexas que o tecem acentuam-se devido aos desequilíbrios económicos, ao passado colonial, aos preconceitos e à incompreensão das evoluções estéticas, políticas e sociais que moldam a realidade do setor artístico em diferentes regiões e países. Como imaginar modelos e práticas que levem em conta essas realidades tão diferentes? Como chegar a um acordo sobre soluções comuns, sabendo que alguns dos temas cruciais — diversidade cultural, direito à expressão artística, mobilidade artística – têm contornos tão diferentes, dependendo se os abordamos nos Balcãs, na Europa Ocidental ou no mundo Árabe?

Além disso, nós, os parceiros, temos de nos comprometer a mudar as nossas próprias práticas. Isso significa que, mais do que proporcionar um espaço para que mentes criativas repensem os nossos modelos organizacionais, temos de fazer um exercício crítico de introspeção e começar, nós mesmos, a mudar. Isto é tão enriquecedor como entusiasmante, mas também pode ser perturbador e doloroso. Ou extremamente difícil em estruturas grandes e complexas. Por fim, qualquer projeto com a ambição de repensar o ecossistema das artes tem de sair da bolha na qual se encontra por vezes enclausurado. O RESHAPE terá que chegar aos profissionais, às redes e iniciativas que não são os nossos aliados tradicionais, que não falam o nosso jargão e cujos instrumentos e métodos podem ser muito diferentes dos nossos. Teremos de aprender a abrir-nos enquanto setor e a fazer alianças novas e construtivas.

A Artemrede vai acolher um workshop da Trajetória 3, dedicada ao valor da arte no tecido social. Ora, o valor da arte tende a reduzir-se a resultados tangíveis ou a produtos. O que se pode fazer para aumentar a influência dos artistas e das suas obras nos vários contextos locais e ajudar a criar um valor intangível para as sociedades?

Mal começámos, por isso não sei que tópicos é que os Reshapers vão destacar dentro dessa trajetória. Mas poder repensar radicalmente a questão e sugerir novos argumentos assentes em pressupostos artísticos sobre o que é verdadeiramente o valor acrescentado na sociedade é algo que me interessa especialmente. Temos uma noção demasiado estreita de valor. Uma noção que se centra em números, que é corroborada por estudos de impacto e que tem muito pouco a ver com a arte. Talvez parte da solução passe por não colocar as artes em caixas pré-definidas que se enquadram em práticas menos elusivas. Talvez seja também necessário reafirmar tudo aquilo que não pode constituir objeto de concessões e aprender a conhecer melhor — antes de encontrar palavras para descrever — as mudanças intangíveis que os indivíduos e as comunidades experimentam quando interagem com os artistas e o trabalho artístico.


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RESHAPE conta com o apoio do programa Europa Criativa.

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