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Dupin-Meynard: participação é resposta às falhas da democratização cultural


Félix Dupin-Meynard
é sociólogo e investigador na área das políticas sociais, culturais e territoriais. Trabalha no Centre d’Études Politiques de l’Europe Latine, colaborou na avaliação da 1ª edição do projeto
Be SpectACTive! (a 2ª edição conta com a Artemrede como parceiro), tendo participado na edição recente da publicação Breaking the Fourth Wall: Proactive Audiences in the Performing Arts. É um dos oradores da conferência Trabalho e Felicidade? Reflexões sobre processos artísticos participativos, que acontece nos dias 15 e 16 de outubro na Biblioteca de Marvila, em Lisboa.

Clique aqui para aceder ao programa completo da conferência.
Clique aqui para ler o Jornal #12 da Artemrede, onde esta entrevista foi originalmente publicada.


Os processos participativos envolvem organizações culturais e artistas, por um lado, e cidadãos exteriores ao setor das artes, por outro. Só parecem ser efetivamente bem-sucedidos quando implementados com os participantes – o que Charles Leadbeater chamava the Art of with. Por que motivo é tão complicado trabalhar com – e permanece a tendência de trabalhar para?
Nalguns países da rede Be SpectACTive! a participação é uma prática comum. Noutros é uma inovação total e, por vezes, assustadora. Em França, a resistência à participação deve-se sobretudo às políticas culturais, que se focam numa política de oferta, centradas na excelência artística. Mas existe uma história paralela, sobretudo no sector sociocultural, na qual a participação é praticada há muito tempo. Há cerca de 20 anos que o paradigma da democracia cultural questiona as instituições artísticas em toda a Europa. Mas várias organizações acham ainda arriscado a transição de um modelo top-down para um modelo horizontal (ou mesmo bottom-up). A fragilização dos financiamentos públicos pode reforçar esse medo da perda de poder, que está associada à ideia de especialização artística. A participação representa, porém, uma oportunidade de resposta às falhas da democratização cultural.

O empoderamento dos participantes é um argumento em favor destes processos, mas até que ponto ele é eficaz se não se questionar a distribuição clássica do poder: os artistas continuam a ditar as regras e os participantes a segui-las, ainda que previamente envolvidos em processos de codecisão...
A noção do empoderamento é controversa. Há quem defenda que as residências participativas não contribuem para o empoderamento (no sentido de uma autonomização e de um fortalecimento do poder dos indivíduos no que respeita às suas condições de vida) porque elas se limitam aos domínios do “dar visibilidade” e do “dar voz”, sem que isso tenha reais repercussões democráticas ou políticas. Outros evocam um empoderamento artístico que, ao reforçar as capacidades de expressão dos indivíduos e dos grupos, contribui para a redistribuição dos papéis entre os que estão habilitados a falar e aqueles cujas vozes nunca se ouvem.
Tudo depende das regras de partilha do poder e do ponto de partida por participantes em termos de capital cultural. Há que ver o empoderamento como uma evolução, mais do que como um resultado. 
Dito isto, é certo que a maior parte das iniciativas participativas não altera a distribuição do poder. Elas são, geralmente, experiências a curto prazo, nas quais os participantes são vistos como “beneficiários”, enquanto que a conceptualização dos projetos continua a fazer-se entre “experts”. Algumas iniciativas tendem a abrir o processo participativo desde a sua origem. É isso, a meu ver, que Be SpectACTive! 2 deveria experimentar.

Quais os efeitos positivos que estes processos têm nos cidadãos, segundo o que teve oportunidade de observar durante o Be SpectACTive 1? E quais os seus maiores riscos ou insucessos?
Os efeitos variam em função da posição social dos participantes e dos dispositivos implementados. Entre os efeitos positivos estão: o prazer, a descoberta (de novas estéticas e de novas práticas), a aquisição de um novo vocabulário de expressão ou ainda uma nova versão de si mesmo, com capacidade e legitimidade para se exprimir artisticamente. No que respeita ao desenvolvimento de públicos, é uma oportunidade para se criarem novos laços entre as instituições artísticas e os cidadãos.
Os insucessos acontecem quando as regras do jogo são mal interpretadas ou quando os participantes sentem que foram alvo de falsas promessas. Há quem fale de frustração ou de instrumentalização.
Esse tipo de situação acontece quando os artistas são confrontados com obrigações contraditórias. Por um lado, há o produtor que insiste na criação de um produto profissional num tempo muito reduzido. Por outro, os participantes reivindicam mais espaço no processo de criação. O esclarecimento prévio e transparente dos objetivos e das regras do jogo pode evitar este tipo de situações.

Num setor tendencialmente endógamo como as artes, até que ponto os artistas são (ou devem ser) permeáveis à contaminação do seu trabalho por elementos exteriores? Participar não pode ser também seguir diretivas concretas e rígidas (como no caso do A Manual on Work and Happiness)?
O sector pode ser parcialmente endógamo, mas os artistas são influenciados pelo mundo que os rodeia. Através da participação, alguns artistas procuram ser estimulados por realidades sociais diferentes que abalem os seus hábitos. Há princípios éticos a respeitar (como a transparência e a benevolência), mas não há uma receita única que possa aplicar-se a todos os participantes. Por vezes, as regras podem mudar durante a experimentação coletiva; o importante é que essas evoluções possam ser negociadas em vez de impostas.

Para além dos artistas, também as organizações culturais são confrontadas com as expetativas do seu público e batem-se pela apresentação de um objeto finalizado, profissional e de qualidade. Como é que o público entra nesta relação e como é possível corresponder às suas expetativas sem defraudar o processo?
Há quem defenda que a qualidade artística se mede por critérios de excelência ou de profissionalismo. Outros acham que a qualidade é de um julgamento subjetivo que muda consoante os contextos sócio-históricos e que pode assentar noutros critérios de valores a discutir coletivamente. Esse debate tem efeitos concretos: alguns produtores procuram reduzir o espaço da participação por receio que ela afete o profissionalismo da obra. Pelo contrário, para alguns artistas, trabalhar com amadores é uma garantia de qualidade pela sua possibilidade de autenticidade. A participação força-nos a inventar novas categorias para apreender a criação artística enquanto processo – e não apenas como produto.
Quanto às expetativas dos públicos, se as pensamos como adquiridas e estagnadas, há um sério risco de desapontamento. Mas podemos também pensar nessas expectativas como algo em constante redefinição: o público pode ser agradavelmente surpreendido por propostas inesperadas. E podemos também tentar atrair os “não-públicos”, que têm certamente expetativas e gostos bem diferentes.

 

Modificado emsegunda-feira, 08 outubro 2018 09:01

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