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ODISSEIA: Entrevista com João Bento, realizador do documentário Histórias em Viagem

Dos microfones para as câmaras; do som para a imagem. Inicialmente ligado ao projeto do espetáculo Histórias em Viagem como formador e sonoplasta, João Bento aceitou o desafio de registar visualmente o processo desta peça noturna e deambulatória da companhia Radar 360º. Os seus inúmeros registos deram origem a um documentário. Esta é uma entrevista-retrospectiva sobre um filme que cruza o humano e o institucional – e que está prestes a estrear (ler a notícia aqui).

Quando surgiu a ideia do filme já estavas a desenvolver um trabalho de som no âmbito das formações que precederam o espetáculo Histórias em Viagem. Como foi esse processo?
Começámos as nossas visitas aos seis bairros em janeiro de 2017. Acompanhei o António Oliveira e a Julieta Rodrigues, da Radar 360º, numa ação que pretendia captar participantes para o projeto. Foi uma espécie de repérage em que escutei as características sonoras de cada local. Criei um diário sonoro dos sítios por onde passávamos. Ouvi os habitantes na primeira pessoa: as suas vontades, alegrias, desilusões e curiosidade relativamente ao que viríamos a construir... Depois passámos às várias formações nos seis municípios, onde desenvolvemos conteúdos práticos e técnicas relativas ao mundo do som. Um dos três dias de cada formação foi inteiramente dedicado à escuta. Foi muito interessante perceber a vontade dos jovens em participar e o modo como se ajustavam a uma área em particular do projeto, já que Histórias em Viagem era um espetáculo que abrangia diferentes disciplinas. Finalmente, construímos em conjunto uma banda sonora deambulatória que surgiu de fontes sonoras diversas e que se ouvia ao longo de todo o percurso do espetáculo.

Em que medida esse trabalho de som se refletiu no filme?
Sou apaixonado por arquivos e por questões que se relacionam com as nossas memórias e factos, que avançam no passado, no futuro e que estão sempre numa orgânica extensível do que nos constrói como comunidade e como indivíduos. O material sonoro foi-se organizando à medida que registado. E, de facto, gerámos muito material, o que fez com que a edição final do documentário fosse um processo moroso! Escutámo-nos uns aos outros, ouvimos e partilhámos as nossas histórias por mais insólitas que fossem. Criámos músicas, experimentámos ambientes. Testámos formas de amplificar locais inesperados e outros invisíveis, e ainda fizemos com que esse som estivesse em movimento ao longo de uma hora. O espólio sonoro era muito amplo e isso contribuiu para a riqueza sonora do documentário. 

Ser confrontado com uma câmara pode ser intimidante. Os participantes aderiram às filmagens sem complexos?
Desde o início que houve uma empatia muito grande entre todos. Isso ajudou a que o registo visual fosse muito fluido. Estiveram todos muito à vontade para partilhar os seus depoimentos e era unânime a satisfação que cada um transportava. Penso que isso foi fruto de uma auto-responsabilização incutida pela direção do projeto, que deixou os participantes a par de tudo, potenciando uma entrega total. No final, eles poderiam levar o espetáculo e fazê-lo sozinhos. Já eram completamente responsáveis e autónomos - e esse era o objetivo. A minha interferência manifestou-se apenas em questões que colocava. Eram questões simples: relatos da experiência, dificuldades e alegrias. Filmar e gravar som na rua, sozinho, nem sempre é fácil. Mas valeu o esforço e a colaboração de todos.

O filme consegue um equilíbrio entre um registo institucional e um tom mais intimista. Como alcançaste esse balanço?
Na fase de edição houve um diálogo intenso com a Artemrede e com a Radar 360º. Apesar de preservar sempre o meu olhar sobre o documentário, houve a necessidade de chegar a consensos para que todas as partes estivessem satisfeitas com o resultado final. Não foi um momento fácil. Todos tínhamos visões próprias do que deveria vir a ser este documentário. Felizmente chegámos a bom porto. Penso que este equilíbrio se construiu neste diálogo e na proximidade que consegui com todos os participantes. 

Modificado emterça-feira, 20 fevereiro 2018 07:55

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