Entrevistas

CATARINA VAZ PINTO



A actual vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Catarina Vaz Pinto, foi uma das protagonistas do processo de criação da Artemrede, que teve início em 2003. Em entrevista ao jornal Artemrede, Catarina Vaz Pinto conta-nos como foi criar a associação, lança ideias sobre as prioridades de uma política cultural autárquica e fala-nos da sua acção enquanto vereadora.

  • Qual foi o seu envolvimento na Artemrede?

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) encomendou um estudo à Quaternaire Portugal, a empresa de consultoria onde eu trabalhava na altura, sobre os equipamentos culturais existentes na Região e a possibilidade de criar parcerias tendo em vista a sua dinamização. Este momento coincidiu com o investimento feito na reabilitação e reconstrução de equipamentos culturais municipais, nomeadamente em teatros e cine-teatros, realizado com fundos comunitários. Estes espaços estavam prontos a abrir e era muito importante que ganhassem vida própria com uma programação cultural regular. No início não existia a intenção de criar a Artemrede ou algo semelhante.

  • Como surgiu então a ideia de criar uma rede?

Começámos por fazer um trabalho de sensibilização com as 51 câmaras que compunham a região de Lisboa e Vale do Tejo, com o objectivo de formar os autarcas, directores de departamentos e responsáveis de serviços ao nível da implementação de uma política cultural autárquica. Para alguns vereadores tudo era novidade. Não tinham as ferramentas necessárias para os problemas que estes novos equipamentos colocavam. Criámos um manual que explicava que missão devem ter os teatros municipais e com que tipo de orçamento devem trabalhar, foi um processo de aprendizagem muito importante para todos. Depois de um ano e meio de trabalho, a então vereadora da cultura de Santarém, teve a ideia de criar uma rede que tornasse viável a programação nos vários teatros municipais. Cada Câmara pagaria uma quota, em função da sua dimensão geográfica, como contrapartida nacional aos fundos comunitários que a rede conseguiria angariar e tornaria assim financeiramente viável a programação.
 

  • Sentiu alguma resistência da parte das câmaras municipais na adesão a esta ideia pioneira?

Estávamos à espera que só 8 ou 10 câmaras aderissem, mas tivemos na origem 16 câmaras interessadas. Ficámos espantados pois eram todas de quadrantes políticos diferentes, foi uma abordagem supra-partidária das políticas culturais. Estávamos de facto a responder a uma necessidade das autarquias e avançámos então em Janeiro de 2005 para a criação da Artemrede. Os municípios envolvidos ganharam competências culturais com a Artemrede e mudaram muito desde então.

  • O que tornou a Artemrede interessante para as autarquias aderentes?

Foi possível promover o acesso à cultura localmente e de uma forma muito pedagógica e próxima das populações. Os programadores das autarquias estiveram envolvidos na selecção da programação desde o segundo ano da Artemrede, o que tornou a oferta muito equilibrada e diversificada. Juntas, as câmaras tinham a capacidade económica para programar espectáculos nacionais e internacionais. É o recurso à economia de escala. O espectáculo Vale, de Madalena Victorino, exemplifica muito bem o que é o espírito da Artemrede. Foi uma produção própria da Artemrede, criada com artistas profissionais e amadores de cada uma das localidades por onde o espectáculo passava. A música para este espectáculo foi composta por Carlos Bica, mas também integrou uma banda de jovens semi-profissionais, que tocavam em grupos locais, para acompanhar o espectáculo. Era um misto de envolvimento das populações com artistas profissionais, o que trouxe para o espectáculo um público muito maior, os amigos, os familiares... Criou-se também, a partir deste projecto, uma grande cumplicidade com os teatros de cada local, com as equipas, com o público...

  • Quais devem ser as preocupações principais, hoje em dia, de um vereador da cultura, em especial num município de pequena ou média dimensão?

Deve lutar pela sua existência, em primeiro lugar! Pelo seu orçamento, defender a recuperação do património, o acesso à leitura e a manutenção das bibliotecas. E, sobretudo, lutar para que a sua população tenha acesso à diversidade cultural. Em Lisboa esta questão não se coloca pois há teatros municipais, nacionais e independentes que garantem uma diversidade da oferta. Mas em cidades mais pequenas é necessário ter uma atitude mais pedagógica na forma de pensar a programação, há um processo de aprendizagem para a cultura que é longo.

  • O papel dos teatros municipais mudou ao longo dos tempos? Qual considera ser o futuro destes espaços?

Muitos destes teatros nasceram nos anos 40, 50, como cine-teatros onde se via cinema ou teatro de revista, num tempo em que não existia a televisão, a internet, os concertos ao ar livre. A noção de tempo livre mudou, o mundo mudou muito e os meios de acesso à cultura também. Hoje é mais difícil chamar as pessoas ao teatro. É importante que os cine-teatros e auditórios não programem só teatro e que ofereçam uma programação diversificada. Para além destas dificuldades, houve falta de planificação na requalificação destes teatros, é por vezes exagerado o número de teatros em funcionamento face à população e à proximidade dos concelhos. Criou-se um problema de insustentabilidade à partida, que a crise torna agora mais evidente. A chamada Lei dos Compromissos e as restricções impostas às empresas municipais também vão tornar a vida dos teatros muito mais complicada. 

  • Trabalhar em rede é uma solução para as dificuldades com que as autarquias actualmente se confrontam?

Existe cada vez mais uma consciência da necessidade de trabalhar em rede, não só nas autarquias da Artemrede, como em Lisboa. No ano passado, por exemplo, várias instituições culturais de Lisboa juntaram-se para apresentar o programa Artista na Cidade. Convidámos a Anne Teresa de Keersmaeker que veio a Lisboa dar a conhecer as 13 obras mais marcantes do seu repertório. A coreógrafa nunca teve oportunidade de apresentar a sua obra desta forma e nenhuma das instituições envolvidas teriam, sozinhas, capacidade para investir numa programação destas. As redes vão existir cada vez mais, nuns casos vão ser formais, noutros informais. No caso da Artemrede, por lidar com os municípios em questão, tinha de ser uma rede formal, senão seria difícil chegar aos resultados a que se chegou. A Artemrede contempla um território vastíssimo, é mais difícil articular os pontos de vistas, tem que haver um núcleo, uma estrutura permanente dedicada a isso.

  • Que consequências têm tido as reduções drásticas dos orçamentos para a cultura?

Lisboa mantém alguma vitalidade graças aos esforços de todas as instituições, através de programas conjuntos ou mais criativos. Mas 2013 vai ser um ano decisivo para percebermos que apoios vão existir e quais as consequências da falta de subsídios. Na CML estamos a fazer tudo para manter os apoios e para trabalhar mais em rede, até mesmo entre organismos como a Direcção Municipal de Cultura e a EGEAC, que há uns anos atrás estavam mais desarticulados em termos de acção. Temos tido iniciativas como a Casa do Cinema, que reúne hoje, num triplex em pleno Bairro Alto, as várias associações que organizam festivais de cinema na capital.

  • Deixa uma marca política, em jeito de balanço de final de mandato?

O programa Biblioteca XXI, por exemplo, que tem por objectivo criar uma rede de bibliotecas territorialmente equilibrada e pensada em função do novo paradigma: a cultura da proximidade. Estas bibliotecas vão ser pequenos centros culturais de proximidade, que não só vão promover e dinamizar a leitura, como também vão estar inseridos na comunidade, ao acolherem as associações e a programação dos bairros. E ainda uma “mini” Artemrede para as freguesias de Lisboa, nomeadamente para as que estão mais afastadas do centro histórico e que não têm um acesso regular à cultura. A primeira iniciativa deste projecto foi o programa Sons pela Cidade que fez chegar a música a todas as freguesias de Lisboa.



Catarina Vaz Pinto

 

“em cidades mais pequenas é necessário ter uma atitude pedagógica na forma de pensar a programação, há um processo de aprendizagem para a cultura que é longo.”

“Estávamos à espera que só 8 ou 10 câmaras aderissem, mas tivemos na origem 16 câmaras interessadas. Ficámos espantados pois eram todas de quadrantes políticos diferentes, foi uma abordagem supra-partidária das políticas culturais.”
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