Entrevistas

JOÃO FERRÃO


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Doutorado em Geografia Humana pela Universidade de Lisboa, João Ferrão é um dos principais investigadores portugueses nas áreas de geografia, ordenamento do território e políticas de desenvolvimento local e regional. Foi Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades de 2005 a 2009 e é actualmente pró-reitor da Universidade de Lisboa. Num momento de redefinição do futuro da Artemrede, João Ferrão fala-nos sobre a importância das cidades, da governação local e das redes para o desenvolvimento social e do território. 

  • Que papel podem e devem as cidades desempenhar face aos desafios actuais?  

Começaria antes por perguntar porque é que as cidades são importantes. Uma percentagem grande de pessoas vive nas cidades e as cidades sub-concentram problemas e oportunidades. Mas há uma questão de fundo: é nas cidades, com as cidades e a partir das cidades que se verificam as grandes transformações civilizacionais - as grandes inovações e mudanças sempre se operaram nas cidades, com elas e a partir delas. As cidades ganham uma centralidade particular no contexto actual de transição e crise. Estamos no meio da ponte, não podemos voltar atrás, e do outro lado não está um futuro anunciado porque o modelo de desenvolvimento que tínhamos não era sustentável. Portanto, as cidades são um palco essencial. Quando falo de cidades não penso no lado físico mas no que as cidades têm de vida, pessoas, capacidades e instituições. É daí que nasce algo de novo e que não sabemos o que é.

  • As cidades podem, então, representar modelos alternativos e sustentáveis de organização da sociedade?

As cidades permitem, de uma forma espontânea ou organizada, ligar o que está desligado. Põem as pessoas a dialogar o que, noutro contexto, elas não fariam, pois têm domínios diferentes de intervenção e pensam, e mal, que a sua intervenção se esgota no seu domínio. A cidade sempre foi caracterizada pela diversidade e, ao ligar as pontas dessa diversidade, está a criar alguma coisa de novo. É como o oxigénio e o hidrogénio, que são elementos que existem por si autonomamente mas, quando se juntam na proporção certa, formam a água, que é fonte da vida. As cidades são fonte de vida quando as pessoas e as instituições têm disponibilidade mental e vontade de juntar as pontas soltas, de trabalhar de forma colaborativa, sem necessariamente ter um guião pré-estabelecido. E quando há uma crise suficientemente profunda percebemos que a crise é uma transição onde não há certezas nem um futuro previsível. As pessoas e as instituições ficam mais disponíveis para colaborar. A frase “o futuro não se prevê, constrói-se”, diz-nos que o futuro não é uma extensão do presente, vai ser algo de muito diferente, que nós estamos agora a construir. As cidades criam sobretudo uma coisa de que nós precisamos: a imprevisibilidade. A habilidade está depois em saber aproveitar de forma inteligente essa imprevisibilidade. É muito importante criar contextos de imprevisibilidade.
 

  • Que papel pode desempenhar a governação local em toda esta mudança?

Quando falamos em governação local associamos logo ao município e, onde a dinâmica de mercado não é suficiente, o papel das autarquias é muito importante. A quem se dirige o cidadão quando tem problemas ou expectativas? À autarquia. Isto tem a ver com a questão da confiança: todos os inquéritos demonstram que os portugueses têm níveis de confiança baixos nas instituições e ao nível interpessoal. Os portugueses não confiam nos portugueses. As excepções são a confiança depositada nas universidades e nas instituições locais, pois a proximidade e a confiança são elementos interligados. Os portugueses confiam na escola, no centro de saúde, na autarquia, porque conhecem as pessoas: o vereador, o técnico, o enfermeiro… 

  • O que falta então à governação local para cumprir o papel de “ligar o que está desligado”? 

À governação local tem faltado sobretudo mais diálogo, menos organização em silo e mais envolvimento dos vários actores relevantes. Neste contexto global de desconfiança tudo aponta para o contrário, para trabalho pouco colaborativo. Acreditar que há espaço para soluções que ainda ninguém conhece de antemão, mas que podem ser inventadas e postas em prática neste processo de governança e de colaboração entre várias entidades é quase um pensamento intuitivo. Apesar de tudo multiplicam-se ao nível local iniciativas organizadas em rede. Essas experiências não têm expressão mediática e, não existindo no espaço público, é como se “não existissem”, o que não é verdade. É preciso ir aos locais para nos surpreendermos com o que existe localmente. Cada uma destas iniciativas não muda o mundo, mas todas são importantes para as pessoas, para as comunidades e para esta mudança subterrânea que está a acontecer.

  • Que obstáculos devem ser ultrapassados para que estas experiências em rede se possam multiplicar?

Há mais redes do que nós pensamos, às vezes até por maus motivos. Há uma grande emulação estimulada pela União Europeia (UE) com redes que permitem que os municípios contactem com outras experiências, mas ao mesmo tempo são centrifugadoras. Os poucos técnicos das autarquias estão tão envolvidos nas redes da UE que têm pouco tempo para se organizar em rede ao nível nacional. Ao nível europeu a insistência já não é na construção de novos equipamentos, mas no funcionamento dos equipamentos existentes através, nomeadamente, da programação em rede. A programação em rede tem quatro grandes dividendos: para com as comunidades locais, para ganhar escala e permitir uma oferta cultural, para com as autarquias, que têm equipamentos e não têm soluções para garantir o seu funcionamento, para com as pessoas, os protagonistas das actividades culturais, e um quarto dividendo, “o cartão-de-visita turístico”: tornar um território atractivo para o turista. Estes dividendos devem ser evidentes para todos de forma a passarmos para outro patamar, em que a programação em rede não é só feita entre pares, ou seja, entre gestores de equipamentos culturais. Há um salto maior a fazer: envolver stakeholders, outros actores e entidades, pois todos ganham com esta dinâmica. Esse é o grande passo.

  • A Artemrede está actualmente a posicionar-se como um instrumento de desenvolvimento cultural dos territórios, colocando a cultura no centro das políticas governativas locais. Como vê este novo posicionamento da rede?

Concordo com esse caminho, significa que a Artemrede vai reforçar a sua componente de mediação. Essa trajectória que estão a percorrer é inevitável no bom sentido, mas também vai trazer novos problemas: se todas as pessoas mais inovadoras de todas as áreas percorrerem este mesmo caminho, todas elas estão a ter uma visão mais sistémica, mais aberta, e podem colidir. Não podemos andar todos a interagir com tudo, é preciso uma visão, uma estratégia, um foco. A alternativa a um mundo organizado por silos não é um mundo tão líquido em que tudo está em contacto com tudo. Tem de haver elementos federadores. Mas o caminho é esse que a Artemrede delineou. Depois de pôr os pares a trabalhar em rede, temos que mobilizar stakeholders em função de uma finalidade, de uma visão e de uma estratégia.
 

  • No contexto actual de crise económica, de deterioração do bem-estar social e de afastamento e descrença dos cidadãos relativamente aos mecanismos de participação na vida pública, que papel poderá caber à arte e à cultura?

Um aparte: é terrível a ideia de que a cultura é uma actividade subsídio-dependente e secundária e as pessoas foram incorporando esta ideia: primeiro resolvem-se os problemas económicos e depois resolvem-se os outros problemas, pois um país em crise não se pode dar ao luxo de resolver questões secundárias, como a cultura ou o ambiente... Esta visão vem da confusão de desenvolvimento com crescimento e crescimento com economia: defende-se que só depois da economia a crescer é que podemos ter outras coisas. Depois vem o discurso moralista: temos de resolver a economia para merecermos outras coisas. É um erro total. Como podemos ultrapassar isto? Com duas ideias: a mobilização de empresas, associações, actores que não são da cultura, para trazermos para dentro do barco entidades com objectivos e lógicas diferentes. Isto é acupunctura, filigrana ao nível local. Estamos a criar iniciativas com stakeholders que têm interesse e vantagens em participar nestas iniciativas que classificamos de cultura. E o trabalho artístico com as comunidades, que proporciona experiências muito importantes para as pessoas do ponto de vista da auto-estima, da redescoberta dos lugares. As pessoas redescobrem-se a si próprias enquanto ser individual e colectivo.

A Artemrede tem vindo a fazer esse tipo de trabalho de arte comunitária e as pessoas voltam aos teatros porque têm uma ligação com as equipas, o espaço ou os artistas. Uma das orientações estratégicas da Artemrede é exactamente a aposta em projectos integrados, de continuidade, que não se esgotem no dia de apresentação do espectáculo. Quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista colectivo, os projectos de arte comunitária são experiências muito importantes para as pessoas, família, amigos e a comunidade. Rompem com uma fronteira tradicional entre quem está no palco e quem está na plateia. A Artemrede está na fase em que, mais do que fazer, o que interessa é fazer fazer. A Artemrede pode estar mais ausente em determinados níveis mas, o que acontece, acontece graças a vocês porque estimularam, mediaram. Isso é bom. O fazer fazer significa que estão a cumprir uma missão muito importante.

JOÃO FERRÃO

“É nas cidades, com as cidades e a partir das cidades que se verificam as grandes transformações civilizacionais”
Modificado emterça-feira, 27 setembro 2016 15:40

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