Entrevistas

ANTÓNIO PINTO RIBEIRO


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Nos dias 8 e 9 de Abril a Artemrede realiza um encontro de reflexão sobre as linhas estratégicas que devem orientar o desenvolvimento futuro da associação. Entre os políticos, programadores e gestores culturais, empresários, artistas e agentes educativos presentes, o encontro conta com a intervenção de abertura de António Pinto Ribeiro, programador cultural, professor e conferencista em várias universidades internacionais, e actual Programador-Geral do Programa Gulbenkian Próximo Futuro. Nesta conversa lança várias pistas sobre o “próximo” futuro da Artemrede e dos teatros municipais. 
  • Que importância reconhece aos teatros municipais como os que integram a Artemrede? Quais são os seus principais desafios no mundo de hoje?

Com toda a sua diversidade arquitectónica, funcional e de programação, os teatros municipais são instrumentos fundamentais para a difusão e criação na área da cultura e das artes performativas no país. Creio, no entanto, que parte deles estão desactivados, ou que foi subvertido o seu objectivo principal, muitas vezes alegando-se a crise financeira, que poderá ter uma quota de responsabilidade, mas não toda. Nunca foram feitos, por exemplo, contratos- programa para os teatros municipais junto dos municípios aos quais pertencem, de forma a incubi-los de actividades de responsabilidade social e cultural ao longo do ano. Como é o caso das bibliotecas. Parte do sucesso das bibliotecas deve-se à assinatura de um protocolo entre os municípios e o então Ministério da Cultura para que essa exigência fosse cumprida.

Hoje os teatros municipais têm de se redefinir, encontrar outro tipo de valências e representar outras áreas para além das artes performativas.

 

  • Como explica o facto das redes, no sector da cultura e das artes, não terem tido até à data muito sucesso em Portugal, ao contrário dos diversos exemplos bem sucedidos na Europa?

A história política e cultural do nosso país é marcada por 50 anos de ausência do mundo: estivemos excluídos e não vivemos as linguagens artísticas e culturais ao longo de mais de quatro décadas. Há um lapso muito grande, estamos a construir uma história que nalguns casos pode repor algum deste desconhecimento mas muito pouco pode ser reposto. Por outro lado só tentámos reconstruir uma vida cultural a partir dos anos 70, 80. As redes também foram afectadas por isso: não havia uma estrutura de redes ou uma aprendizagem da colaboração em rede entre os municípios e os poucos equipamentos culturais. E também houve sempre um grande individualismo da parte de alguns responsáveis e agentes de práticas culturais. É uma aprendizagem a ser feita, uma colaboração que tem de ser entendida. Têm de existir projectos comuns de negociação cultural. A riqueza destas redes não é serem totalmente homogéneas, é o contrário, é compreender a diversidade, que depois circula entre os vários municípios. Há uma aprendizagem enorme a fazer e que deve ser partilhada com o público.
 

  • Quais são para si as principais conquistas e as maiores fragilidades da Artemrede, que comemora, em 2015, 10 anos de existência?

A primeira conquista é a criação da rede, dada a dificuldade que existe de colaboração e associação entre municípios, e sobretudo entre municípios tão diferentes, com políticas culturais, visões, gostos e orçamentos muito diversificados. Ter a capacidade de criar uma rede nestas condições foi um enorme esforço que tem hoje como compensação a Artemrede ser exemplar e pioneira. A segunda conquista tem a ver com os projectos de co-produção que a Artemrede promoveu e que são produções com imensa qualidade. Tive oportunidade de ver algumas e gostei muito. É uma vitória conseguir criar, ao nível local, juntando criadores excelentes com intervenientes locais. A sua maior fragilidade é o facto da Artemrede ter sido projectada apenas para um plano local e não ter sido, até agora, um exemplo de colaboração e partilha ao nível nacional e, até diria, europeu. Esse salto ainda não foi dado, talvez ainda não tenha passado tempo suficiente para que ele pudesse acontecer. Espero que a Artemrede venha a ter uma visibilidade nacional. Se assim tivesse acontecido, o abandono da rede por parte dos municípios, por exemplo, trar-lhes-ia outro tipo de responsabilidades e penalizações, dada a visibilidade dessa decisão. 

  • Um projecto como a Artemrede, constituído por municípios, deve ser pensado para além dos teatros, como elementos integrantes da vida das cidades? Nesta perspectiva, que missão vê no futuro da Artemrede e dos teatros municipais? 

Um dos objectivos da Artemrede, em relação às necessidades de hoje, passa por algumas alterações que são substantivas. Os teatros municipais e a Artemrede não se podem focar apenas na programação artística e nas artes performativas como o teatro, o cinema ou a música. É fulcral que incluam outras áreas como o ambiente, a ecologia e a educação, que fazem parte do que se pode chamar o “chapéu” da transmissão de conhecimentos.

Acções com um efeito mais imediato nos cidadãos e que contribuam para o desenvolvimento saudável, intelectual e ambiental das nossas cidades. Esta é uma nova forma de entender a cultura e para a qual é preciso encontrar uma linguagem mais adequada e mais comunicativa. As várias linguagens têm de ser entendidas por todos. É também muito importante que os cineteatros se associem a tradições culturais de curta duração da região, como os festivais de música, cinema ou fotografia criados há 20 ou 30 anos e que são âncoras locais, que podem permitir aos cine-teatros uma melhor distinção regional.

  • Recentemente foi divulgado mais um estudo sobre o impacto económico da cultura, encomendado pela Secretaria de Estado da Cultura. Que opinião tem sobre este estudo e sobre a forma como mede o “sucesso” das práticas culturais?

Foram publicados dois estudos entre os 10 que estão para sair e são ambos muito frágeis,

sobretudo porque são estudos do sector da economia deslumbrados pelo sector da cultura, por, de repente, se pensar que a cultura é rentável. Mas a cultura, a arte e o dinheiro estão relacionados desde que a primeira moeda foi cunhada, têm uma relação intrínseca e inseparável. Os investigadores destes estudos, que são pessoas muito competentes na área de economia, sabem pouco sobre o universo cultural, não têm a experiência vivida. Por isso mesmo, o último estudo que saiu não passa de uma sebenta de introdução à economia. Mas há outra questão fundamental: as metodologias de avaliação que usam são as mesmas que avaliam bens. Na educação e na saúde encontraram-se de alguma forma metodologias próprias. Na cultura, em Portugal e na Europa, não há muitas. Há contudo algumas que são importantes, mas essas demoram tempo para availar. Ou seja, não se pode fazer uma avaliação da cultura ou de uma determinada actividade artística no imediato, logo a seguir a um espectáculo ou uma exposição serem apresentados. Decorre um processo de anos de onde depois se deduz o impacto que teve na vida das pessoas. É um processo diacrónico.

Por experiência própria sabemos que é possível um dia gostarmos de um filme que vimos e, cinco anos depois, pensarmos “como é que eu fui capaz de gostar daquele filme?”

 

  • A dificuldade de afirmação do sector cultural junto do poder político poderá estar relacionada com a falta de reconhecimento por parte da sociedade? Como podemos conquistar essa massa crítica tão vital à consolidação dos projectos culturais?

Não nos podemos esquecer da história deste país, os 48 anos de ausência do mundo. Não chegaram cá a pop arte, os movimentos científicos mais determinantes e a grande literatura fundadora do século XX. Há um universo inteiro com o qual não contactámos e parte dele não é recuperável porque é efémero. Há uma falha enorme em Portugal em termos de memória cultural. Há também uma literacia cultural que não foi feita, à semelhança da literacia na alfabetização. É muito importante, por exemplo, que existam mediadores capazes de comunicar o que as pessoas vão ver, que não encerrem o seu discurso num universo auto-referencial e demasiado intelectual. A arte sempre exigiu códigos de acesso que exigem uma aprendizagem e o trabalho destes mediadores é descodificar a arte e a cultura para os públicos. Depois temos que ter consciência que até mesmo em Paris ou Londres há uma dificuldade em cativar e manter públicos. 

  • Em ano de eleições europeias, ainda vale a pena falar de uma identidade cultural europeia?

A identidade não é estatística e nunca foi, ela vai sendo. A identidade cultural europeia é o hoje, é o seu horizonte, o seu passado e os desejos do futuro dos seus milhões de habitantes. A Europa podia definir-se, aí sim, em termos da promoção de políticas culturais mais comuns. Há políticas culturais europeias para a ciência, porque é que não há o equivalente para a cultura, para as culturas de imigração e de diáspora, para a circulação dos artistas ou ainda políticas fiscais comuns para a cultura nos países-membros?

 

António Pinto Ribeiro

 

“Ter a capacidade de criar uma rede (...) foi um enorme esforço que tem hoje como compensação a Artemrede ser exemplar e pioneira.”
Modificado emterça-feira, 27 setembro 2016 15:39
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