Entrevistas

MARTA PORTO


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Marta Porto

A brasileira Marta Porto é uma das principais presenças internacionais da Conferência Políticas Culturais para o Desenvolvimento, organizada pela Artemrede no dia 12 de fevereiro. Foi assessora do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, coordenadora do Escritório Regional da UNESCO, Rio de Janeiro e secretária da Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil. Na conferência participa no painel “A mediação cultural junto dos territórios e das comunidades – responsabilidade e compromisso social”. Formada em jornalismo, é especialista em políticas de comunicação, arte e cultura, trabalhando como ensaísta e consultora.

  • Numa altura de grandes exigências sociais e económicas, as instituições culturais ditas convencionais – teatros, museus, bibliotecas – têm um papel a desempenhar para além do que seria a sua missão original? Ainda é legítimo defender “à cultura o que é da cultura”, “ao social o que é do social”? 

Do ponto de vista metodológico, eu acho importante defender ainda essa distinção porque na cultura a gente trabalha basicamente com a potência das pessoas, você tem uma tipologia de gestão que está muito voltada para pessoas com os seus talentos, os seus sonhos, as suas criatividades, os seus modos de fazer, e é atrás de isso que o gestor cultural deve ir. No caso social, o compromisso opera a partir da ideia de vulnerabilidade. O sujeito considera-se vulnerável num determinado espaço e isso condiciona muito o trabalho social. A ausência desta distinção provocou um ou vários problemas no desenho da gestão da cultura em vários países, porque quando se fala de desenvolvimento a partir da cultura, você abre um espaço possível de mudar a rota desse desenvolvimento, de transgredir o espaço. Quando você fala do desenvolvimento a partir do foco social, você está usando a ideia da inclusão naquilo que já está posto. Essas duas condições são muito distintas no desenho da política. É evidente que você tem com a gestão cultural uma consequência social, um impacto social muito grande, mas o ponto de partida é diferente. 

  • Uma das prioridades estratégicas da Artemrede é a centralidade, no contexto da programação que desenvolve, dos projetos artísticos de intervenção comunitária, como forma de aproximação ao território e às comunidades. Considera que esta é uma linha correta de posicionamento dos espaços culturais?

Sem dúvida alguma. Se hoje você não tem um programa artístico voltado, não para os artistas convencionais, mas abrindo a possibilidade do fazer artístico em cada local e em cada território e com a comunidade, é muito difícil defender a legitimidade de um espaço cultural que está inserido num determinado local. Eu diria que o trabalho que a gente tem que fazer é o de ter um engajamento maior com as comunidades e tentar estimular uma participação. Aí é um processo duplo: ao mesmo tempo que se faz um programa voltado para talentos e projetos locais, você também tem por obrigação trazer a comunidade para dentro do seu teatro, da sua biblioteca, do seu espaço cultural, interferindo de alguma forma no desenho da programação.
 

  • Pode dar exemplos de boas práticas nesta área?

A curadoria é um deles. A curadoria modula algumas indagações. Quando você faz uma Curadoria educativa ou de programação, você consegue criar vários níveis distintos de olhar para áreas de conteúdos e repertórios. Há um projeto aqui que se chama Agência de Redes para a Juventude, que é um programa em que a gente identifica projetos comunitários em vários locais, favelas, subúrbios, comunidades. Esses projetos se inscrevem para integrar um programa e você usa os técnicos de vários espaços culturais e de políticas para criar um programa de tutoria. Ao se inscrever você olha essa iniciativa, contribui para que ela melhore tecnicamente, e aí ela recebe um apoio gradativo, tanto financeiro como de recursos humanos, para passar a integrar uma programação oficial de um centro cultural. É que geralmente os espaços culturais se acomodam. Aí você vai a cada ano propondo indagações e você vai descobrindo nos territórios pessoas com olhares distintos e tipologias de fazer comunitário, cultural, artístico diferente. Temos também um projeto sobre o modernismo, que nasceu com um manifesto político, e a pergunta que a gente se está colocando é: onde está isso hoje? Onde está essa inquietação que na década de 20 provocou uma rutura estética no Brasil? Aí se iniciou um trabalho de investigação que está a ter derivações interessantíssimas. 

 

  • O que é então para si um trabalho de mediação cultural com efeitos positivos para o desenvolvimento da sociedade? 

Eu acredito muito que o trabalho de mediação tem de ser de provocações estéticas, artísticas, onde esse fluxo se encontre e provoque alguns graus de rachadura, transgressão, inquietação e devolva de formas distintas. O projeto dos 450 anos do Rio , por exemplo, é uma forma de mediação a partir de uma indagação curatorial que cria um desconforto para os centros culturais, mas também cria a possibilidade de organizar em cada território um sistema de trabalho que vai provocar uma inquietação maior. Esse fluxo, esse diálogo é que faz com que a mediação vá criando outros paradigmas para os espaços culturais, se não vira trabalho social. E é muito fácil programar projetos que têm uma grande visibilidade mediática mas que se limitam a prolongar as assimetrias que já existem - “uma programação de segunda para públicos de segunda”. É muito complicado porque existe um descolamento muito grande dos espaços tradicionais de cultura do debate político. É preciso ter uma massa de jovens, um mundo inteiro na rua provocando inflexões. Há toda uma modelação estética que os equipamentos culturais estão esquecendo. E a cultura é esse nível de provocação do imaginário. Arte é uma outra modulação. A Arte, para se oxigenar, tem que se valer através das experimentações estéticas que cada vez mais ocorrem em territórios pouco visíveis. Mas ali é que está uma grande inquietação porque ela vem de uma grande desigualdade social. Mas sempre que a gente entra nesse território, a gente não quer abrir a cabeça para a inquietação, e acaba fazendo cultura de segunda para públicos de segunda. E aí você mantém sempre as coisas no mesmo lugar. Não tem como descolar.

  • Atualmente a cultura parece ter a necessidade de justificar permanentemente o seu valor, seja pelo impacto económico seja pelo potencial de promover a inclusão social. A arte já não vale por si?

Há um processo de domesticação da arte e esse é o maior risco que a gente viveu nos últimos 30 anos, eu diria. Eu uso como exemplo a ciência: a ciência cresceu muito, é a base da nossa sociedade e ela tem um método investigativo que parte de uma hipótese. Se você não acreditar que a ciência em si é importante, nada do que estamos vivenciando no mundo teria acontecido. Esse valor da ciência vale para a Arte. Tem um texto muito importante do Jung sobre isso. Ele diz que a Arte e a Ciência têm um valor em si. São os dois fatores que ajudam a mudar paradigma. A sociedade reconhece a ciência com esse valor mas ela não conhece a Arte. E a Arte traz junto um grau de espiritualidade, de produção de um imaginário, onde há crença nas pessoas que, se ele não existir, você tem o inverso disso, que é a estética da violência, a ausência de uma autoridade maior em que tudo tem função. Há também um texto lindo do Paul Valéry sobre isso, onde diz que as coisas não têm que ter uma função, inclusive quando a gente vai trabalhar para uma comunidade. Os textos são muito moralistas, especialmente no Brasil. Eu vou fazer um trabalho na comunidade para tirar menino da rua, para ocupar o tempo livre. Não tem nada de mais absurdo do que assumir uma retórica de ocupar o tempo livre. Nunca é para desenvolver pessoas, para pensar princípios novos de cidadania, novos direitos, novas modulagens estéticas de poder. É nesse lugar que a gente está hoje e isso talvez signfique um avanço, eu pessoalmente acredito muito nisso, a partir da atuação dos espaços culturais, mais até que da política cultural em stricto senso.

  • Mas terão os espaços culturais a mesma importância que já tiveram? Num mundo “líquido” onde o virtual parece por vezes mais “real” que a realidade, como podem os espaços culturais institucionais manter a sua importância e o seu papel na sociedade?

Eu acho que os espaços têm que necessariamente de se reinventar, defendendo programas diferentes, que também é uma técnica de mediação para públicos distintos. Tem que haver uma busca por essa participação em que você tem essa troca de gente, a pulsão de pessoas diferentes ocupando o mesmo espaço. É quase como se o sujeito tivesse saindo daquele lugar que o transforma quase numa máquina, que é o trabalho, para entrar num espaço de ócio, por exemplo. Ele tem um lugar bonito para sentar no jardim ou para dormir... Não é a atitude permanente em cima daquilo que a gente quer que é uma atitude cultural. As pessoas têm que ter o espaço do simples relaxamento. E isso o espaço cultural tem que prover também. A  pessoa pode ir para o teatro num momento, e se tiver um lobby aberto não só no momento do espetáculo, mas noutros momentos, como uma biblioteca de periódicos que as pessoas frequentem para ler, suspirar, sonhar, isso já constitui uma tipologia nova de espaço cultural. Essa busca é fundamental, a busca de um silêncio. Não são as novas tecnologias ou um mundo de pulsão permanente e de muito fluxo de informação que é a garantia de uma espiritualidade tranquila. Não tem nenhum lugar, nenhum, que uma pessoa possa exercer isso que não seja num espaço cultural. 

Modificado emterça-feira, 27 setembro 2016 15:40
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