Introduction

MULHERES EM TERRA, HOMENS NO MAR

Um espetáculo intimista e documental, que dá voz às mulheres, contribuindo para a valorizar o papel das mulheres na economia do mar.

MULHERES EM TERRA, HOMENS NO MAR

Os pescadores que andavam à pesca do bacalhau passavam seis meses no mar. Enquanto isso, as mulheres ficavam em casa, a governar. Esta performance teve como ponto de partida a recolha de testemunhos de algumas dessas mulheres e suas famílias, e da pesquisa feita nos acervos documentais do Museu Marítimo de Ílhavo.


"No final dos anos quarenta do século XX, António de Oliveira Salazar é Presidente do Conselho de Ministros e governa Portugal, criando uma ditadura antiliberal, anticomunista, orientada segundo os princípios conservadores autoritários: “Deus, Pátria e Família”. É mais ou menos nesta altura, mais precisamente entre 1947 e 1950, que a jornalista Maria Lamas, decide viajar pelo país, para conhecer ao vivo a situação das mulheres em Portugal. Maria Lamas percorre o país desde Trás-os-Montes ao Algarve. Fala com as camponesas de Castro Laboreiro, das serras do Barroso, do Caramulo e do Lindoso, mas também com as assalariadas agrícolas do Ribatejo, do Alentejo e do Algarve. Dedica um capítulo inteiro à mulher do mar, mas quando Maria Lamas diz, “mulher do mar” ela não se refere à esposa do pescador ou do marinheiro. Para Maria Lamas, a mulher do mar, é toda a mulher que participa na economia do mar. Aliás, Maria Lamas diz que estas mulheres só não embarcam porque alguém tem de ficar a tomar conta da casa e dos filhos, e esse papel estava destinado culturalmente às mulheres."

Mulheres em Terra, Homens no Mar traz para o centro do palco a voz das mulheres que nos anos quarenta, cinquenta e sessenta do século XX participaram de forma direta ou indireta na economia do mar. Pescadoras, sargaceiras, peixeiras, rendeiras, operárias das várias indústrias como as secas do bacalhau ou as conservas de peixe; as mulheres sempre estiveram ligadas ao mar.

Em 2018 o Museu Marítimo de Ílhavo pediu-me para criar um espectáculo que valorizasse o papel das mulheres na chamada “grande epopeia do bacalhau” ou “grande faina”. A “grande faina” corresponde ao período durante o Estado Novo, em que os pescadores viajavam até aos Bancos da Terra Nova e da Gronelândia para pescar bacalhau. Estas viagens duravam seis a nove meses. Os pescadores que fizessem cinco destas viagens estavam dispensados do serviço militar obrigatório e, numa fase posterior, dispensados de irem para a Guerra Colonial. Alguns homens desertavam, outros davam o salto – literalmente – do navio, mal este se aproximava da costa dos Estados Unidos.
O Museu Marítimo de Ílhavo tinha a expectativa que eu representasse alguns episódios que, segundo eles, estavam associados ao papel das mulheres durante a “grande faina”, como a preparação do saco, embora nem todas as mulheres tivessem a cargo esta tarefa; ou como o envio de telegramas, embora poucas mulheres enviassem telegramas porque eram muito caros e porque eram lidos – censurados – por outras pessoas. Havia ainda a expectativa que representasse a “angústia” da espera, embora para muitas mulheres, o facto de o marido estar ausente era sinónimo de autonomia e de liberdade.
A pesquisa para construir este espectáculo levou-me aos acervos documentais do Museu Marítimo de Ílhavo e ao seu Centro de Investigação (CIEMar) onde descobri o livro da jornalista Maria Lamas, Mulheres do Meu País. Lamas escreve este livro para conhecer ao vivo a situação da mulher portuguesa. Nesse livro, dedica um capítulo inteiro à mulher do mar. É uma das primeiras pessoas a valorizar o papel da mulher na economia do mar afirmando que ela é mais do que a mera esposa do pescador. Trabalhadora das várias indústrias como as secas do bacalhau, as conservas, a mulher é ainda sargaceira, peixeira, pescadora e fazedora de redes, dedicando-se a várias profissões e actividades ligadas à pesca e ao mar. Em suma, para Lamas, esta mulher é sobretudo uma trabalhadora. Lamas escreve o livro durante o período do Estado Novo, no final dos anos quarenta do século XX, apresentando uma visão alternativa à do regime que sonhava com fadas do lar e anjos domésticos.
Para a construção deste espectáculo decidi entrevistar mulheres em Ílhavo, na Gafanha da Nazaré, Gafanha da Encarnação, Gafanha de Aquém, Peniche, São Bernardino, Murtosa, locais onde apresentei também o espectáculo. Estava interessada em ouvir as suas histórias. Ainda é possível recolher testemunhos directos de mulheres que viveram nos anos quarenta, cinquenta e sessenta do século passado. Não por muito tempo. São testemunhos pessoais, cheios de informação, que nos dão pistas de como se organizava a vida do dia-a-dia nessa altura e quais as estratégias de sobrevivência adoptadas por estas mulheres.
Os livros de História estão cheios de grandes datas, acontecimentos determinantes, figuras centrais que muitas vezes ignoram as pessoas comuns que também viveram essas mesmas datas, que também foram afectadas pelos acontecimentos determinantes e marcados pelas figuras centrais da História. Isto é óbvio, mas muitas vezes esquecido. Embora esta peça não seja um trabalho de História, utiliza elementos de pesquisa etnográfica, como base da sua construção.
Assim, pretende-se ligar a vida das mulheres que participaram na economia do mar nos anos quarenta, cinquenta e sessenta do século XX ao contexto histórico que se vivia, compreendendo melhor as circunstâncias das suas narrativas pessoais. Não é novidade para nós que a vida, nessa altura, era muito dura, a pobreza era generalizada e estendia-se a quase toda a população, sobretudo às mulheres, na sua maioria analfabeta. A isto acrescia o facto de estarem ainda sujeitas à autoridade do pai, do marido, do filho, do patrão, do padre, ou seja, dos homens. Por estas e outras razões, é muito difícil não heroicizar estas mulheres, cujos testemunhos são o elemento chave desta peça. Há uma superioridade moral da pobreza à qual a peça não consegue fugir.
Nesta peça, os elementos teatrais foram reduzidos ao mínimo e optou-se por trabalhar com o formato palestra performance para valorizar os testemunhos e fugir à tendência de representar, folclorizar ou fixar uma identidade local. Mesmo assim, manteve-se visível o próprio processo de recolha de entrevistas numa tentativa de desnaturalizar e fugir a uma pureza moral discursiva.
Esta peça – apesar de todas as suas ambições – é, sobretudo, um trabalho artístico, que envolve a construção de ficções. Ou seja, não pretende contar a verdade, antes chegar a uma ideia de verdade através de um caleidoscópio de histórias e do facto de que nos ligamos uns aos outros através da construção de narrativas, do contar de histórias.
Haverá muitas vozes em falta neste espectáculo. A maior falta será a inclusão da voz do bacalhau. Talvez noutro contexto consiga desconstruir palavras como “economia do mar”, “peixe” e devolver a esses seres (mar, bacalhau, rede) a sua humanidade e um lugar – central - na História. Ainda podemos entrevistar bacalhaus, não por muito mais tempo.
Maria Gil

Nota Biográfica | Maria Gil (Lisboa, 1978): Licenciou-se em Teatro – Formação de Actores e Encenadores na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (2003) e realizou um MPhil em Performances Autobiográficas na Universidade de Glasgow na Escócia (2009). Cria espectáculos despojados e fundados na palavra, estabelecendo uma relação directa e próxima com os espectadores; as suas dramaturgias têm como ponto de partida premissas autobiográficas e histórias de pessoas e de lugares, que recolhe, cruza e ficciona, para construir uma poética do quotidiano. Os seus trabalhos evocam a periferia e a margem, mas também pessoas e lugares em desaparecimento. Colabora regularmente com criadores de várias áreas artísticas, nomeadamente da dança, da música, das artes visuais e do cinema. Trabalha com várias instituições públicas e privadas, concebendo, desenvolvendo, e realizando actividades e estratégias educativas que articulam a imaginação e o pensamento.

Artista: Teatro do Silêncio / Maria Gil

Género Artístico: Teatro | Palestra Performance

Classificação etária: M/12

Apresentação em Territórios ARTEMREDE:
LISBOA   Auditório da Biblioteca de Marvila | 11 de dezembro de 2020, sexta-feira, às 21:00
MOITA   Fórum Cultural José Manuel Figueiredo | 17 de abril de 2021, sábado, às 21:30 - ADIADO - Nova data a anunciar

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Criação Maria Gil Apoio dramatúrgico Miguel Bonneville Consultadoria histórica Elisa Silva Operação de luz, som e vídeo Sabrina Santos Acolhimento Teatromosca e Casa de Teatro de Sintra – Chão de Oliva Comunicação Sara Cunha Registo Vídeo e fotográfico Joana Linda Coprodução Museu Marítimo de Ílhavo/Câmara Municipal de Ílhavo, Câmara Municipal de Peniche, Câmara Municipal da Murtosa Produção Teatro do Silêncio

Projeto cofinanciado pelo FEDER, através do Centro 2020 - integrado no Projeto "Territórios com História: o Mar, as Pescas e as Comunidades"

Agradecimentos Tiago Pereira – A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria

O Teatro do Silêncio é uma estrutura apoiada pela República Portuguesa-Cultura/Ministério da Cultura - Direcção-Geral das Artes e pela Junta de Freguesia de Carnide.

 

 

 

 

 

 

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