EDITORIAL PT

No conto O Capuchinho vermelho, cujo imaginário inspira um dos espetáculos que apresentamos neste 2º Manobras – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, há uma personagem de olhos, orelhas e boca grandes que fascina e assusta em doses iguais. Essa dualidade - atração e medo – que o lobo encarna é semelhante à dualidade que as artes tendem a provocar numa parte significativa da população. Há curiosidade, mas perdura um distanciamento, fruto do medo de nos lançarmos no bosque e de acabarmos devorados na clareira das nossas referências e (pre)conceitos.

Foi conscientes disso que, no final de 2017, decidimos criar grupos de espectadores em vários municípios associados da Artemrede. Durante meses, coordenados por um programador local, esses grupos assistiram a espetáculos, debateram os seus conteúdos e, em conjunto, programaram uma parte deste festival. Chamam-se Visionários, mas poderiam ser uma versão alternativa do lobo: com olhos grandes para verem mais longe, com orelhas grandes para ouvirem melhor, com uma boca grande para discutirem propostas. Com esta iniciativa, esperamos, contribuímos para que pessoas sem ligação às artes se aventurassem pelos caminhos enigmáticos da programação cultural, (se) questionassem e crescessem como espectadores e cidadãos. Acreditamos, também, que esta foi uma experiência construtiva para os teatros, ajudando-os a aproximarem-se e a criarem laços mais fortes e duradouros com as suas comunidades. Graças aos Visionários a edição deste ano é mais participativa e, consequentemente, mais democrática. Agradecemos o entusiasmo e a generosidade dos Visionários e também o empenho dos programadores e mediadores municipais, que abraçaram esta iniciativa desde o primeiro momento.

Mas nem só de Visionários em pele de lobo vive esta edição do Manobras. Peter Pan e os irmãos Grimm foram também pontos de partida para outras obras, num assumido retorno a imaginários infantis familiares para depois desbravar novas perspetivas. Há ainda espaço para oficinas e outras propostas para públicos infantis e adultos como uma ópera barroca de marionetas que revisita, com um olhar contemporâneo, uma obra do século XVIII. Continuam, como na edição anterior, os percursos e as visitas a espaços patrimoniais (combinados com espetáculos). Há também dois novos objetos cinematográficos criados expressamente para Tomar e Sobral de Monte Agraço. E a não perder, na noite das Bruxas, o encerramento do festival com uma festa assombrada no café-concerto do Teatro-Cine de Pombal.

Tudo isto acontece em 11 dos nossos municípios associados: Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Pombal, Santarém, Sobral de Monte Agraço e Tomar! Estamos à vossa espera!

Marta Martins - Diretora Executiva da Artemrede